quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O sujetio da psicanálise
Apresentação
O sujeito em questão na psicanálise é aquele de origem marcado pela divisão. Trata-se do sujeito do inconsciente: aquele que não sabe o que diz quando alguma coisa é dita pela palavra que lhe falta, assim como por uma conduta singular que ele crê ser sua.
O sujeito pode ser definido em relação ao fading, ao cansaço, que é fruto da relação entre o sujeito e si próprio, não entre o sujeito e o mundo.
Pode também ser definido como um efeito de sentido do significante, o que quer dizer, sobretudo que é sem conteúdo. O sintoma da dúvida é uma boa ilustração do que significa um efeito de sentido sem conteúdo. O sintoma da dúvida é, em si, sem conteúdo. O conteúdo da dúvida é derivado, secundário. A dúvida primária é sem conteúdo. Talvez até possamos dizer que a dúvida primária é real e, para fazer um dialelo, dizer que essa concepção do sujeito permite defini-lo como real.
Um discurso modela a realidade, sem esperar nenhum consenso do sujeito, dividindo-o, seja o que for que ele enuncie. Disso resulta possível situá-lo nos mais diversos discursos. O discurso do analista exprime o sujeito como outro, ou seja, lhe remete a chave de sua divisão. O discurso da ciência torna o sujeito mestre, na medida em que o desejo que lhe dá validade ao mesmo tempo o subtrai. É também por isso que aí se manifesta um real próximo do discurso histérico.
Dado que o significante representa um sujeito, não um significado, para um outro significante, não para um outro sujeito, o significante não pode sucumbir ao signo, que representa alguma coisa para alguém. O psicanalista está advertido de que esta alguma coisa da qual deve se ocupar é a divisão do sujeito, que não deve ser tomada por uma coisa, posto que é falha e de estrutura.
A divisão do sujeito ressoa as vicissitudes do saber do sexual sempre traumático, sempre condenado ao fracasso pelo fato de que o significante não está apto para formular na estrutura a relação sexual.
A coletânea – O sujeito da psicanálise - está distribuída em quatro seções: topologia do sujeito, sujeito e discurso, clínica do sujeito, sujeito e gozo.
A seção Topologia do sujeito compreende três artigos: no primeiro, se encontrará a justificação da metáfora como operação significante equivalente à condensação freudiana, a metáfora como mecanismo primário das formações do inconsciente.
No segundo, se relaciona o primeiro momento de efetuação da estrutura, o Fort-da, como correlativo ao domínio da linguagem falada, e o segundo, a castração, como correlativo domínio da leitura e da escrita. A esses dois momentos de efetuação da estrutura, Roseli Rodella acrescenta um terceiro, a puberdade, momento em que o sujeito encontra-se com o Outro sexo, com a ausência do significante que nomeia Mulher. Este terceiro momento, a autora coloca como correlativo ao domínio da matemática. O número, aí, como uma forma de se representar no Outro tal como somos representados pelo significante.
No terceiro, Didier Castanet define a estrutura do sintoma como estrutura da metáfora, tal como Freud fez a ilustração mais patente na formação do sonho. Pode-se, então, dizer que se o inconsciente é efetivamente estruturado como uma linguagem, o sintoma enquanto substituição constitutiva da linguagem é parte integrante, sempre possível, da linguagem. Dessa forma, ele é uma especificidade do parlêtre. O corolário disso seria saber por que haveria substituição de prazer ou de desprazer. Então, a função do sintoma não é somente significante, mas também de gozo. Ele não se reduz a uma verdade a ser interpretada, mas é também gozo a ser decifrado. O sintoma, na sua função de gozo, pode se fazer ouvir tanto quanto nós procuramos encontrar para ele um sentido. É a questão de uma clínica para além dos limites, ou seja, uma clínica do objeto, do real e do gozo, que está também para ser interrogada.
A seção - Sujeito e discurso - também reúne três artigos: no primeiro, Ida Freitas pergunta: ante a insistente questão veiculada na mídia, não sem intenção, claramente calculada - a psicanálise vai acabar? -, questão que é reflexo da cultura moderna, ante os avanços tecnológicos, da biogenética, das neurociências, qual o lugar do psicanalista nesta cultura tecnicamente aparelhada, onde tempo e espaço são redefinidos? A biogenética, ao reduzir a mente a um objeto de manipulação tecnológica, ao reduzir o homem a um mero objeto natural, apresenta-se como uma ameaça à humanidade, ao nosso censo de dignidade e autonomia. Como nós psicanalistas deveríamos agir diante desta ameaça que, em ultima instância, é uma ameaça ao sujeito particular, singular, único?
O segundo artigo, de Christian Dunker, examina a noção de crença à luz da psicanálise. O autor parte de uma apresentação das formas da incidência subjetiva da crença, tendo em vista sua fenomenologia, para em seguida discernir alguns elementos lógicos de suas constituição. O objetivo do trabalho é contribuir para o enfrentamento clínico de apresentações subjetivas fortemente marcadas pela crença. O autor propõe uma distinção entre interatividade, interpassividade e ato analítica como forma de clarificar a abordagem psicanalítica da crença.
O artigo de Angélia Teixeira, encerra esta seção. A autora evoca a concepção psicanalítica do Outro para falar da barbárie contemporânea. Recorre à teoria lacaniana dos discursos, onde Lacan dá um tratamento teórico ao discurso do capitalista, para evidenciar o impacto causado pelos elementos próprios ao capitalismo sobre a subjetividade.
Em A clínica do sujeito, José Antonio Pereira da Silva, autor de “O sujeito em questão na psicose”, primeiramente se pergunta se é possível estabelecer a diferença do conceito de sujeito na neurose e na psicose, para, em seguida, apresentar algumas possíveis distinções, e concluir com esta máxima: o sujeito do inconsciente em questão na neurose é evanescente, descontínuo; na psicose é permanente.
O que é uma criança? É a pergunta colocada por Sonia Magalhães em seu artigo “O evanescimento do mundo infantil”. Pode-se dizer que ele põe em destaque a importância da amnésia infantil como pré-história do sujeito. Referindo-se a Royo, a autora observa que cada época inventa seu conceito de criança - a forma de pensar a infância. Em Freud, o conceito de infância é correspondente ao de sexualidade infantil, que é dividido em dois momentos: antes e depois do período de latência. A hipótese principal do artigo, no entanto, também referida a Royo, é a de que no último meio século, vem ocorrendo um desaparecimento do mundo infantil, na medida em que vem crescendo progressivamente as exigências de se tratar uma criança como um adulto. Em suma, a criança de Royo não brinca mais. A autora parece contrariar sua referência, ao apresentar o conceito de infantil em Lacan, que é equivalente ao conceito de estrutura, isto é, ao efeito do significante que, por definição, está sujeito a um necessário evanescimento. Como no “Bloco mágico”, não no nível do comportamento, mas da linguagem (isto é, d´alíngua), a criança-sujeito de Lacan está sempre sujeita a aparecer e desaparecer. O que a autora nos leva a pensar, é que o evanescimento do mundo infantil é necessário, e que é impensável que ele possa deixar de acontecer no adulto. Dito de outra maneira: provavelmente, haverá sempre (é o necessário) evanescimento do mundo infantil, e, provavelmente, nunca haverá (é o impossível) a suposta permanência do mundo adulto.
O que leva um sujeito ao ato suicida? A resposta direta da autora, Soraya Carvalho, com base, principalmente, no estudo de 2600 casos, é: a perde de um significante-mestre. Este S1, a autora acrescenta, é correspondente ao Ideal do eu, um significante ideal que dava suporte ao sujeito. Para o sujeito suicida, conclui, ser morto é a única maneira de dispor de um lugar no campo do Outro, o que, de resto, ainda demonstra a reserva que devemos ter de encarná-lo em pessoas do ambiente familiar.
Com o artigo de Vitória Ottoni Carvalho, “O sujeito e o sintoma”, conclui-se a seção Clínica do sujeito. A autora se ocupa da conjunção, sujeito e sintoma, correlativa da conjunção, Freud e Lacan, isto é, da conjunção, sintoma-formação do inconsciente e sintoma-sujeito. Segundo a hipótese lacaniana, sujeito coincide com corpo, e, desse modo, a conjunção que finalmente a autora quer demonstrar situa-se entre sintoma e corpo.
E, em - Sujeito e gozo -, Carlos Pinto Corrêa, em seu artigo “O homem contra o sujeito”, sustenta o argumento, segundo o qual, parece irresistível a vocação que o homem possui para estar sempre voltado para o seu exterior, fugindo àquilo que tem de mais próximo que é o seu próprio interior. Seja nas ciências, na filosofia, na literatura, sempre existiu uma dificuldade no homem de pensar sobre si mesmo. Sócrates confessava não saber. Pensar é não saber e, mais, quando se pensa não se pretende saber, quando se pretende saber não se pensa. Assim, o homem tem vivido sem saber de si, mesmo com a proposta psicanalítica de revelar o sujeito do seu inconsciente.
Clarice Gatto, por sua vez, em seu artigo “A pulsão, seus destinos e o sujeito em análise”, se pergunta: qual a relação entre a noção de pulsão em Freud e a de gozo (jouissance) em Lacan? Em que a distinção demonstrada por Freud para os destinos possíveis da pulsão aparelha o psicanalista na direção do tratamento? Segunda questão: se um sonho, via régia da psicanálise, testemunha a existência das formações do inconsciente e o sintoma testemunha o retorno do recalcamento: será que posso referir os destinos da pulsão à estrutura da fantasia e, por conseguinte, ao modo de gozar de um sujeito além do princípio do prazer, em sua versão do pai (péreversion)?
Finalmente, Marcus do Rio, em “Supereu e imperativo do gozo”, também se coloca uma questão, que lhe parece um tanto ingênua, mas que, longe disso, parece conter muita malícia, acerca da naturalidade com que nos referimos à definição lacaniana do supereu. De fato, diz, esta definição já faz parte das nossas referências teóricas há tanto tempo que costumamos esquecer - ou, no caso das novas gerações de analistas, saltar - a definição freudiana, evitando cotejá-la com a leitura de Lacan. A nossa questão poderia ser resumida desta forma: Lacan está sendo coerente com Freud quando fala do supereu?
Boa leitura.
Jairo Gerbase

A VERDADE COMO SUJEITO DO GOZO


I
Pode-se pensar a psicanálise contemporânea a partir da existência de três paradigmas: o freudiano caracterizado pelo paradigma pulsional, o kleiniano caracterizado pelo paradigma objetal, e o lacaniano caracterizado pelo paradigma do Sujeito.
O termo sujeito, no entanto merece algumas precisões: no Dicionário Aurélio aparece definido como ser individual, real, que se considera como tendo qualidades ou praticado ações. No Dicionário de filosofia de Oxford, Sujeito aparece como sinônimo de Eu. No Vocabulário técnico e crítico de filosofia de A. Lalande, Sujeito aparece definido desde da lógica, da metafísica, da psicologia, da sociologia, do direito e da filosofia.
O uso do termo Sujeito varia também dentro da filosofia. Por exemplo para Heidegger Sujeito é uma categoria da filosofia que se deve descontruir, para Marx a história é um processo sem Sujeito, e portanto a noção de Sujeito seria uma categoria da ideologia, já a fenomenologia identifica Sujeito à consciência.
Pensado desde a psicanálise, constata-se que Freud não utilizou o termo Sujeito, mas não foi alheio à questão, e a abordou com outra terminologia, podendo-se dizer que usou o termo Das Ich para se referir ao Sujeito da experiência.
Em Lacan o termo Sujeito está presente desde seus primeiros escritos, e no início seu uso equivale a "ser humano". Depois Lacan diferencia o Sujeito da lógica, do Sujeito gramatical, assim como difere o Sujeito de um Sujeito definido apenas por oposição ao objeto. Lacan tambem diferencia o Sujeito noético, gramatical, do Sujeito anônimo e ambos do Sujeito cuja singularidade se define por um ato de afirmação.
É a este Sujeito, entendido como o que se define por um ato de afirmação, que Lacan diferencia do Eu. O Eu é entendido como a sensação de um corpo unificado, e na teoria do estádio do espelho, encontra-se produzido desde o a imagem do outro.
Em diferença do Eu, o Sujeito decorre do Outro,(com maiúscula) que é referência à linguagem enquanto efeito da ordem simbólica. Por isso o Sujeito é consequencia do significante, e está regido pelas leis do simbólico. Para Lacan, portanto, a causa do Sujeito é a estrutura do significante.
Para Lacan o Sujeito não é uma sensação consciente, não é uma ilusão produzida pelo Eu, senão que é insconsciente, e por isso não é o agente da fala, mas é descentrado, acéfalo, dividido, evanescente.
O Sujeito na psicanálise é explicitamente diferente da consciência, portanto é um Sujeito não fenomenológico, não é uma categoria normativa, ele é uma categoria clinica, e não remete a uma totalidade.
O Sujeito da psicanalise é o Sujeito do inconsciente, e como o inconsciente está estruturado como linguagem, o sujeito do inconsciente decorre do significante. O sujeito é o que representa um significante para outro significante.
Devido ao fato do ser humano ser atravessado pela linguagem, para o ser falante, sempre haverá Sujeito do inconsciente.



II-
O Sujeito do inconsciente testemunha a dependência do falante à ordem simbólica que pré-existe à sua constituição. A linguagem, como paradigma da ordem simbolica depõe da relação do Sujeito com o saber, constituindo a evidência empírica do tratamento analítico o que foi nomeada como transferência. Dai Lacan ter formalizado a transferência como um Sujeito Suposto ao Saber .
Mas como os saberes mudam, pode-se então supor que o Sujeito tambem muda. Dai Lacan rter insistido na existência de um Sujeitoproprio à sua época, que ele chamou de moderna. Lacan em Ciência e verdade , posicionado-se sobre esta questão, utilizou a expressão "um certo momento do Sujeito" como também, ainda referindo-se ao Sujeito, falou de "um momento históricamente definido", e ainda, em relação ao Sujeito, refere-se a "um momento históricamente inaugural".
A razão desta possibilidade de temporalizar o sujeito, está na afirmação de Lacan de que o Sujeito está definido em relação ao saber. Como o saber muda , o Sujeito também muda, causando o surgimento de um Sujeito novo em função da nova relação deste com o saber.
Para Lacan o Sujeito novo seria o Sujeito da ciência em tanto fundamento da modernidade do Sujeito. Para Lacan o aparecimento de um Sujeito que se poderia chamar de moderno, está historicamente localizado a partir da publicação das Meditações metafísicas de Descartes , que com a operação do Cogito teria produzido este Sujeito novo.
Situar o Sujeito moderno como decorrente da operação Cartesiana, é centraliza-lo em relação à uma razão objetiva. Este sujeito "reflexivo", seria moderno por diferir de um anterior, cuja característica seria a de ser centro do conhecimento.
Para Lacan o Sujeito cartesiano é o pressuposto da noção de inconsciente, pois a psicanálise, tal qual Descartes, parte do fundamento do sujeito da certeza, ou seja o Sujeito pode ter certeza de si desde que se possa destacar no seu discurso dúvidas que aparecem como reveladoras de um Sujeito dividido. O lugar do "eu penso" é para Freud independente do "Eu sou".
Para Lacan, um dos temas que caracteriza o pensamento moderno, é a idéia de um personagem vivendo só em uma ilha deserta, e mencionando Robinson Crusoé, sugere que esta idéia representa o começo da era moderna, pois seria fundamental para o homem moderno poder afirmar sua independência, e autonomia em relação a todo amo e a todo Deus.
Lacan faz referência ao homem moderno relacionado-o ao discurso da liberdade, da mesma maneira que faz referencia à uma ciência moderna, que segundo ele se caracterizaria pela eliminação do simbolismo religioso dos céus, o que possibilitou estabelecer os fundamentos da física atual.
Para Lacan foi Descartes quem através de seu Cogito fundou o Sujeito moderno. Caberia então a pergunta: há um Sujeito que seja atual, produzido por um saber novo compartido nos dias de hoje?
Levando-se em consideração a articulação entre Sujeito e história, para alguns autores haveria um Sujeito pós-moderno decorrente da mudança de saber ocorrida neste século, pois a partir da teoria quântica, da teoria da relatividade de Eistein, da desmonstração da incompletude de qualquer sistema feita por Goedel, da teoria dos tranfinitos de Cantor, da lógica paraconsistente de Newton da Costa, da teoria das catastrofes de Reneè Thom, para o saber compartido socialmente, tornou-se comum e aceitável a idéia da incerteza, de incompletude, da improbabilidade do provável e da probabilidade do improvável, caracterizando o que se veio a chamar de Nova Ciência. Esta nova maneira de pensar rompeu com os paradigmas Newtonianos de uma certeza calculavel e demostravel, modificando os fundamentos do saber conteporâneo.
E por não ser mais um Sujeito que se refira a um saber unificado, o sujeito pós-moderno seria um sujeito sem paradigmas de consenso, como por exemplo ocorre em relação às mudança dos costumes sexuais, ou em relação às mudanças ideológicas, fazendo do Sujeito pós-moderno um Sujeito que sofre da ausência de ideais preestabelecidos.





III-
Talvez por tudo isto, um último destino para a noção de Sujeito surgiu atualmente no campo do saber, que é sua desconstrução ( Derrida) fundando um novo momento na filosofia, a que se chamou de "pós-estruturalismo" , momento este é apresentado como a morte do sujeito.
A possibilidade da inexistência de sujeito, teria inaugurado, segundo alguns autores, o que se pode chamar de subjetividade pós-moderna, questão que, levando-se em conta que existe uma articulação entre sujeito e historia, permite perguntar: como situar a responsabilidade deste novo Sujeito no mundo moderno? Em que a psicanálise pode contribuir para modificar as formas contemporâneas do mal estar na cultura?
Lacan no texto Função da psicanálise em criminologia, aproximou a psicanálise do Direito, ao correlacionar as duas com a produção de uma verdade. Neste texto Lacan mostra que o que se chama de Eu nao pode ser uma mera referência às funções psicológicas da consciência, mas sim deve indagar como o Sujeito pode se aproximar da verdade. Através do paralelo com a confissão (admissão de culpa), comum tanto ao direito como à psicanálise, Lacan chama a atenção que importante não é a confissão mas o reconhecimento ( da verdade). Neste ponto Lacan sugere que para se saber o que é um Sujeito, para saber como ele se reconhece em seu ato, seria pela prática das ficções jurídicas, de seu manejo, de sua teoria, que poderiamos apreender algo sobre a estruturação do Sujeito (em relação à veradade).
O que se trata então, não é da existência ou não de um Sujeito, pois para a psicanálise o sujeito é evanescente, ele é apenas efeito do significante. Porém a existencia do significante não pode ser negada e por isso, para a psicanálise, o Sujeito é um Hypokaimenon, ou seja não tem substância, pois depende do significante.
Dai a necessidade de Lacan introduzir o conceito de Parlêtre, (este sim substacial no sentido de ousia) conceito que, ao articular o corpo com o significante, torna possivel tomar-se a verdade como causa material, ou seja no verdadeiro trata-se de reconhecer ( não confessar) o gozo, conceito que passa a ser a chave para a verdade do Sujeito.
Podemos então concordar com Tercio quando levanta a possibilidade do Sujeito ser uma invenção do analista, e existir só virtualmente (idealmente).( Há autores que afirmam que o inconsciente só existe na relação analítica). Porém o gozo não é virtual e não ganha significancia somente a partir do analista, pois o gozo é um real que inscreve o efeitos da palavra no corpo.
Por isto o analista entenderá sua época a partir dos novos semblantes que servem para distribuir o gozo, sendo que aparentemente existe uma tendência de procurar o gozo sem que haja a mediação do Ideal, o que caracterizaria a tendência da subjetividade moderna.
Resumindo, para a psicanálise, o Sujeito é sempre responsável. Porém é responsável pela verdade. Verdade esta indicada pelo seus modos de gozo.
Seria exagerado concluir que, para a psicanálise, somos sempre responsáveis, e não há inimputabilidade?
A posição de Lacan sempre foi clara, tendo afirmado, no texto Ciência e Verdade: "...somos sempre responsáveis da nossa posição de sujeito. Que isto se chame, onde quiserem terrorismo".




Marcio Peter de Souza Leite é Médico, Psiquiatra, Psicanalista, Diretor-Geral da Escola Brasileira de Psicanalise-SP, Diretor do Instituto de Pesquisa em Psicanálise de SP, autor dos livros: Psicanálise Lacaniana, ed Iluminuras, SP, 2000, o Deus odioso, o Diabo amoroso, ed Escuta , SP, 1996


O texto "A Verdade como Sujeito do Gozo" foi extraído da Carta de São Paulo de agosto/2000.






Psicodetalhamento na vida cotidiana


Hei, você aí, pare aquele sujeito!
-Que sujeito?
- O baixinho de óculos.
-Não não, perguntei se fala do sujeito noético ou do sujeito como consequência do significante.
-Ãh?
-É. Pois esse é acéfalo, dividido e evanescente.
- Quê?
- A menos que o senhor seja analista. Aí então concluo que esse tal sujeito seja virtual, sua invenção.
- Como é que é?
...
Se você ainda acha que sujeito é sinônimo de "pessoa", ou, no máximo, uma palavra elegante para chamar o "cara", ou "fulano", ou "tipo" que participou da sua pesquisa, considere-se um "sujeito de sorte". Agora você vai poder precisar melhor o termo e entender realmente alguns textos de psicanálise que tem lido...
É que precisar, também é preciso.
Mas, na Verdade, ele trata da ... bem, vamos logo ao que interessa. Passo a palavra ao "sujeito" que escreveu:


Psicanálise e Ciência: um sujeito, dois discursos

Hilana Erlich*


           A proposta desse trabalho é investigar a relação entre psicanálise e ciência a partir da noção de sujeito. De acordo com Lacan, o surgimento da psicanálise, só foi possível a partir das condições instaladas pela ciência moderna, cujo discurso introduziu uma marca essencial à psicanálise.
          A marca de que se trata diz respeito à noção de sujeito, termo usado por Lacan para apontar o ponto de interseção entre esses campos. Em seu texto “A ciência e a verdade” (1966), Lacan afirma que o sujeito da psicanálise é o sujeito da ciência. Frente a esta postulação, surgem as seguintes interrogações: sendo o sujeito o mesmo, estaria a psicanálise no campo da ciência? Como definir este sujeito comum a ambas? Em que medida essa marca (sujeito) é fundamental à psicanálise?
          Com Lacan, pode-se dizer que a psicanálise é produto do advento da ciência moderna.

“Que é impensável, por exemplo, que a psicanálise como prática, que o inconsciente, o de Freud, como descoberta, houvessem tido lugar antes do nascimento da ciência, no século que se chamou do talento, o XVII- ciência, a ser tomada no sentido absoluto no instante indicado, sentido este que decerto não apaga  o que se instituíra antes sob esse mesmo nome, porém que, em vez de encontrar nisso seu arcaísmo, extrai dali seu próprio fio, de uma maneira que melhor mostra sua diferença de qualquer outro”(Lacan, 1966:871).



O cientificismo da época de Freud, de cujas fontes ele bebeu o conduziram a abrir a via para a psicanálise.


“Dizemos que essa via nunca se desvinculou dos ideais desse cientificismo, já que ele é assim chamado, e que a marca que traz deste não é contingente, mas lhe é essencial. E que é por esta marca que ela preserva seu crédito, malgrado os desvios a que se prestou, e isso na medida em que Freud se opôs a esses desvios sempre com uma segurança sem retardos e com um rigor inflexível”(ibidem, p.871).
          Segundo Lacan, o conceito de sujeito da ciência advém da hipótese por ele sustentado de um sujeito constituído pela determinação científica. Esta hipótese implica em dizer que a ciência moderna determina um modo específico de constituição de sujeito. É com Descartes a partir de sua formulação do cogito que esse sujeito emerge numa nova concepção.  O cogito (penso, logo sou) é resultado da experiência que fez Descartes de um despojamento de saber. Ao utilizar a dúvida como método, passou a questionar todas as idéias estabelecidas, inclusive sua própria existência. Como adquirir alguma certeza, já que nada mais se sustentava? Em meio a tantos questionamentos, Descartes elabora a seguinte resposta: “- só posso estar certo de que penso, pois mesmo que duvide, ainda assim, continuarei pensando”.
          Com o cogito, é possível verificar que o ato de pensar passa a testemunhar a existência do sujeito no simbólico, quando penso, existo. O pensamento é exigível até para se duvidar. Uma vez que há pensamento, ou seja, simbólico, linguagem, há ser. O cogito afirma o ser enquanto pensante. Ao tomar o cogito como referência para sua definição de sujeito da ciência, portanto, também da psicanálise, Lacan sublinha a importância da dimensão simbólica do sujeito, acrescentando a proposição de Descartes de que existe pensar, o fato de que há um sujeito que pensa. O cogito tem valor para a psicanálise na medida em que inaugura o sujeito em sua vertente simbólica. É somente nessa vertente que algo pode ter valor de existência para o ser falante. Apesar de não abarcar tudo, já que para a psicanálise o simbólico é incompleto, é neste campo que o trabalho de análise vai se dar debruçando-se sobre o que é da ordem do pensamento, fala e linguagem.
          A interrogação do saber existente por meio da dúvida causou em Descartes o efeito de uma destituição subjetiva, ou seja, Descartes sofreu um esvaziamento, descentramento da imagem que o definia como sujeito. Se o que sustentava a imagem através da qual se reconhecia era o saber até então existente, uma vez questionado e não mais conservado, por um instante, eis que a imagem se desfaz. Por um momento desse processo, ao cair o saber, surge o sujeito na sua certeza de sujeito pensante.

          Trata-se do sujeito que se funda num para além da consciência, que encontra sua ancoragem no momento evanescente e pontual em que duvida. Despojado de garantias, atributos e significações, só pode se constituir como resíduo, na dúvida, na incerteza do saber, no intervalo entre dois significantes, num instante. Este instante de interrogação em que algo da verdade do sujeito aparece e causa uma ruptura com o que antes já estava estabelecido, é o que Lacan nomeia de sujeito do inconsciente. Trata-se de um intervalo, cuja pontualidade da manifestação acarreta uma desorganização da estrutura consistente do eu.
          Como exemplo, pode-se pensar no ato falho que enquanto manifestação do sujeito do inconsciente, ao ser escutado, introduz uma nova significação, fazendo corte no saber existente do eu, logo, convocando ao trabalho. Esta experiência causa estranheza ao eu, que se surpreende com o aparecimento de algo que aponta neste primeiro momento, um sem sentido na sua rede construída de sentido. Lacan provoca: “Qual é, pois esse outro a quem sou mais apegado do que a mim, já que, no seio mais consentido de minha identidade comigo mesmo, é ele que me agita?” (Lacan, 1957, op cit, p.528).
O processo de destituição subjetiva implica numa queda da vertente imaginária do eu que se pretende total, de modo que o saber que o sustentava cai, fazendo aparecer a verdade da divisão. Este saber, é um saber egóico, em outras palavras, saber sabido, que muitas vezes aponta o engano do sujeito.

        

          O que Lacan extrai do cogito, é a noção da divisão subjetiva, em que o sujeito marcado por um saber surpreende-se com a aparição de um saber não sabido. Conclui-se daí que o sujeito da ciência nomeado por Lacan equivale ao sujeito tal como definido pela psicanálise, sujeito dividido entre saber e verdade.
        
          Considerando o sujeito do inconsciente como o que porta uma verdade do sujeito, a psicanálise passa a situar o campo do simbólico como não-todo. Isto se coloca, na medida em que este sujeito só pode aparecer enquanto furo, numa estrutura que não é totalizadora, isto é, incompleta. O saber do sujeito dividido é incompleto, o que possibilita espaço para o não-saber advir.
 
          Pode-se dizer que Descartes através do cogito tirou a conseqüências com relação a subjetividade, daquilo que Galileu criou como modelo para a ciência moderna, ou seja, a física moderna, matematizada. Enquanto operação introdutória da ciência moderna, a física matematizada, ao submeter seu objeto a tal operação o despoja de suas qualidades. De acordo com Milner, uma teoria do sujeito que pretenda responder a tal operação da física deverá também despojar o sujeito de toda e qualquer qualidade. Esse sujeito despojado de qualidades que segue a determinação científica é o sujeito da ciência. É o existente que o cogito faz emergir, ou seja, um sujeito sem qualidades, cujo pensamento que atesta sua existência também é qualquer. Esse existente chamado de sujeito por Lacan, responde ao gesto da ciência moderna, no sentido de trazer para o sujeito as características científicas. O pensamento sem qualidades inaugurado pelo cogito é a marca da ciência essencial à psicanálise, ou seja, o despojamento de qualquer atributo para o sujeito. 

          No entanto, se Lacan sustenta que a ciência inaugura uma nova concepção do sujeito, disto não decorre que este sujeito seja por ela aceito em sua operação. Ao contrário, pode-se afirmar que para constituir-se enquanto tal, ela precisa excluir este mesmo sujeito que inventa de seu campo.  Ainda que o sujeito da psicanálise seja o mesmo da ciência, daí não resultam operações equivalentes sobre este. A posição que o sujeito ocupa nestes discursos e a forma como operam sobre ele, são fundamentais na compreensão da relação entre psicanálise e ciência.
          A ciência deixa de fora de sua operação o sujeito que ela mesma gerou, de forma que se pode colocar que a psicanálise trabalha com o resto da ciência, incluindo-o em seu campo, como sujeito do inconsciente. Isto implica em dizer que é preciso ainda subverter o sujeito da ciência, ou seja, o sujeito dividido entre saber e verdade, destacando o inconsciente do qual se é sujeito para situar o sujeito da psicanálise.
          A descoberta freudiana atesta o fato de que: “o ego não é o senhor da sua própria casa”. (Freud, 1917:178), isto é, ali onde o eu se pensa único no comando dos processos psíquicos, equivoca-se, uma vez que os processos inconscientes determinam sua morada. Freud destrona o eu do lugar de unidade e saber como considerado por Descartes, para outro, do conflito e da divisão. A consciência e a razão são derrubadas de seu lugar de verdade, passando a representar o lugar do engano. A subjetividade deixa de ser entendida como um todo unitário, identificado à consciência, para ser uma realidade dividida entre os sistemas consciente e inconsciente.
          Ao introduzir o inconsciente no cogito, Lacan o reformula: no lugar de penso, logo sou - afirma: penso onde não sou, logo, sou onde não penso. Com isto, aponta um Outro lugar para o pensamento, que não o eu. Na medida em que o pensamento para a psicanálise é inconsciente, pode-se dizer que o sujeito do pensar é o sujeito do inconsciente. A partir daí coloca-se que o sujeito da psicanálise é inconsciente e dividido entre saber e verdade.
Conclui-se assim que se a psicanálise deve a ciência seu próprio surgimento na história do pensamento, não se reduziu a ela, operando uma ruptura para estabelecer sua especificidade, sob cujo nome de inconsciente atesta sua particularidade.
         



Bibliografia:

ELIA, L.”Psicanálise: clínica e pesquisa”. Em: ALBERTI, S e ELIA, L (org) Clínica e Pesquisa em Psicanálise. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2000 p.19-35.
ELIA, L. “Uma ciência sem coração”, Revista Agora: estudos em teoria psicanalítica, vol II, n.2. Rio de janeiro: Contra Capa Livraria / programa de Pós-Graduação em teoria psicanalítica – UFRJ, 1999, p 41-53.
FREUD, Sigmund. Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1982.
__________. (1917)“Uma dificuldade no caminho da Psicanálise” Em: Obras Completas. vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
LACAN, J.“A ciência e a verdade” Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
 _________.(1953) “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise” Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1966.
_________.(1957) “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde de Freud”. Em: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1966.
MILNER, Jean Claude. – A Obra Clara. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996

*Autora: Hilana Erlich é mestranda em Clínica e Pesquisa em Psicanálise pela UERJ, pós-graduada em psicologia clínico-institucional no HUPE – UERJ (Hospital Universitário Pedro Ernesto) e psicóloga do PAM Oswaldo Cruz (Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro).

EXTRA! EXTRA! O FIM DA PSICANÁLISE!?

Robson Campos
Alguém que tenha passado diante de uma banca de revistas em outubro de 2002
teve a oportunidade de se deparar com a seguinte manchete estampada na capa da
SUPERINTERESSANTE
precisa de Freud?
A mera curiosidade de uns e o interesse preocupado de outros contribuíram para que
várias dessas revistas fossem vendidas: méritos dos autores e dos editores. Entretanto, após
a leitura das nove páginas dedicadas ao assunto, percebe-se que nenhuma novidade
consistente estava sendo apresentada. Basta comparar tal reportagem, por exemplo, com
uma similar publicada na revista
sensacionalista –
páginas – numa tentativa de convencer aos leitores de que o avanço das neurociências e das
psicoterapias breves estaria levando a Psicanálise para o túmulo.
Essas reportagens, como de resto a maioria das críticas endereçadas à Psicanálise,
sustentam-se num equívoco primário: a tentativa de estabelecer uma competição entre
Psicanálise, Psiquiatria Biológica e Psicologia, como se esses três saberes tivessem uma
finalidade comum – remover sintomas neuróticos. Se assim fosse, e é esse o raciocínio que
sustenta tais reportagens, a Psicanálise seria derrotada pelas suas supostas concorrentes por
ser mais demorada e, conseqüentemente, mais cara do que os tratamentos medicamentosos
ou as psicoterapias breves.
O ponto central a ser desfeito nesse equívoco e que elimina essa suposta competição
é que a Psicanálise não tem como finalidade remover sintomas, ainda que esse resultado
acabe sendo obtido, por acréscimo, como costumava afirmar Freud no início do século XX.
Ultrapassar o nível da erradicação sintomática tornou-se fundamental a partir da
verificação de Freud de que um sintoma não surgia casualmente, mas pelo contrário,
possuía um sentido latente, ou seja, o seu aparecimento testemunhava que algo não ia bem
com o sujeito que dele padecia.
Ao invés de atacar os sintomas, considerados a partir de então como efeitos, Freud
propôs uma investigação sobre as suas causas, conduzindo o sujeito ao encontro com a sua
própria verdade inconsciente.
Alguns anos mais tarde, Freud pôde constatar também que existiam sintomas
resistentes a esse trabalho de decifração, ou seja, por mais que fosse atribuído sentido a
certos sintomas eles se mantinham inarredáveis. Uma curiosa parceria se estabelecia entre
os pacientes e os seus sintomas a ponto dos primeiros não conseguirem se livrar dos
últimos, mesmo com toda a determinação em acabar com o sofrimento que esses
produziam.
Essa constatação funcionou – e ainda funciona – como um motor que mantém os
psicanalistas, em cada tratamento que conduzem, empenhados no acompanhamento e
retificação das artimanhas utilizadas pelo ser humano em sua tentativa de continuar amando
o seu sintoma como a si mesmo. E mais do que isso: considerando que um analista é o
resultado, o produto que emerge de uma análise
também uma exigência no que se refere à formação do psicanalista: por maior que seja o
conhecimento teórico acumulado pelo estudioso da Psicanálise, esse não será suficiente
para o exercício da prática clínica, uma vez que só é possível operar além da mera
atribuição de sentido se o analista se submeter, ele próprio, a uma Psicanálise que lhe
possibilite saber lidar com o seu próprio inconsciente, do qual ele também não está imune.
Tendo a Psicanálise as suas especificidades, tanto no seu método quanto na
formação de seus praticantes, não faz o menor sentido contrapô-la a outros campos do
conhecimento. Muito pelo contrário, seria mais coerente perceber a existência de uma
cooperação mútua entre esses saberes que, aliás, é o que acontece na prática mesmo quando
não se tem esse objetivo, como exemplificou Francisco Barreto
de análises por alguns homens após a chegada do
contrapartida, trouxe aos divãs dos psicanalistas as parceiras desses
Além disso, se por um lado não podemos abrir mão dos progressos científicos, por
outro também sabemos que nenhuma droga cura a dor de existir ou a ignorância de alguém
sobre a sua própria verdade. Isso é um presságio de que, apesar dos pessimistas de plantão,
a Psicanálise terá uma vida longa.
: “O fim da Psicanálise? Será que alguém (incluindo você) ainda” 1.VEJA em março de 1994, que trazia um título não menos“Dr. Prozac contra Freud” 2 – e que mereceu o mesmo espaço – nove3, a constatação de Freud vai produzir4 a propósito do abandonoViagra às farmácias, mas que emhomens insaciáveis.
1
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1
Revista Superinteressante. São Paulo: Editora Abril, nº 181, outubro 2002, p. 42-50.
2
2
Revista Veja. São Paulo: Editora Abril, março 1994, p.50-58.
3
3
1968, p.14-30.
LACAN, Jacques. Proposition du 9 octobre 1967 sur lê psychanalyste de l’École. In: Scilicet 1. Paris:Seuil,
4
4 BARRETO, Francisco. Nossa pica. In: Ornicar? Digital – Revue électronique multilingue de psychanalyse

Palavras-chave: sintoma, formação do analista, neurociências, psicoterapia breve

Resistência ao "Amor à Verdade"

É COISA QUE SE ENSINE O AMOR?

Ana Claudia Moraes Merelles Bezz
Escola Lacaniana de Psicanálise do Rio de Janeiro

Entre areia, sol e grama
O que se esquiva se dá
Enquanto a falta que ama
Procura alguém que não há.
A Falta que ama
Carlos Drumond de Andrade

Era uma festa para muitos convidados. O que se festejava então era o nascimento de Afrodite, deusa da beleza. Entre os convidados, encontrava-se Poros, o Recurso, conhecido também como Astúcia.  Penia, a sem recursos, também viera para os festejos de Afrodite, e por se tratar da miséria, não pode entrar no local, permanecendo nos degraus, próximo à porta de entrada. Por ser Aporia, isto é, por nada ter a oferecer, não entrou na sala do festim. Mas, eis que surge algo que subverte a ordem comum: Poros, embriagado, adormece. Isso permite a Aporia, de olhos bem abertos, fazer-se emprenhar por ele e conceber um filho que se chamará o Amor.
É assim que Lacan, recorrendo a Platão, relata o mito da concepção do Amor: de um encontro de Poros, o Recurso, com Aporia, a falta de recurso, a miséria. Vemos, então, Lacan destacar dois pontos importantes com relação ao engendramento do amor: a falta e a ignorância. Aporia, por definição e estrutura, não tem nada a dar senão sua falta, aporia constitutiva. O outro ponto diz respeito ao não saber: Poros não sabia. No momento da concepção do amor, Poros, este deus, filho da sabedoria, o recurso por excelência, ignora. E assim é concebido o amor: uma conjunção da falta com a ignorância. Aliás, este tema da ignorância é o que é sublinhado também no mito de Édipo, pois também ele não sabia que tinha matado seu pai e desposado sua própria mãe. Para a psicanálise, o neurótico é aquele que ignora o seu destino ou mesmo o seu desejo e, partindo de uma falta fundamental, ama aquele que supõe responder ao que ele desconhece.
Esse amor que há séculos tem feito coisas que até mesmo Deus duvida e que ocupa demasiado os poetas, bem cedo aparece na história da psicanálise. Freud se deparou com o fato de que o tratamento analítico, fora dos moldes da hipnose, ocasionava o surgimento de algo chamado amor de transferência: uma ligação erótica do paciente àquele que viria ocupar o lugar do analista, como se a presença do analista reativasse no sujeito a capacidade de amar. E com muita sabedoria, aconselha Freud aos principiantes na arte de psicanalisar : é recomendado que, no início da análise, não se incentive o paciente a tomar decisões muito radicais em sua vida, incluindo a de  se casar. Nos primórdios da construção do edifício psicanalítico, o que faz o seu parceiro Breuer fugir arrebatado pelo amor da primeira paciente da psicanálise, Anna O., impulsiona Freud a não recuar diante desta surpresa, descobrindo assim que esse fenômeno espontâneo e inquietante era manejável pela interpretação.
O que leva alguém a endereçar um pedido de análise? O que o sujeito procura quando vai ao encontro de um analista? O analisando, empobrecido em sua questão sintomática, irá se dirigir a um analista para amar o que pensa se esconder como saber no Outro. Sendo assim, o que o sujeito de fato ama é o saber sobre o seu desejo que é no entanto o que ele ignora. A transferência é o que vai balizar todo o percurso da análise, e o endereçamento do amor transferêncial tem a ver, fundamentalmente, com isso: amar no Outro o  saber, a busca da verdade. A Histérica, aquela que inaugura a psicanálise, assim o faz: supõe que o que o outro guarda a chave de seu desejo. No entanto, se o sujeito se endereça a alguém, se procura algo é porque lhe falta; é também porque lhe falta que ele ama. Mas o neurótico é aquele que imaginariza a falta. Vive a falta como fracasso, como derrota. Vive o desencontro como má sorte e supõe que uma vez encontrada a pessoa certa estará livre de todos os males. E é justamente por haver a inscrição de uma falta naquele que ama que ele vai se endereçar ao Outro, vai formular ao Outro o que ele tem a dar e a responder. Essa é a estrutura que põe em funcionamento o movimento transferencial.
É coisa que se ensine o amor?  Se o sujeito ama para saber, entretanto, basta amar para que caia presa da hiância, da discordância em jogo no amor, uma vez que aquele que ama descobre fatalmente que não há coincidência entre o amante e o amado: o que falta a um não é o que existe escondido no outro. Há , portanto, a inscrição de uma falta naquele que ama. O amor está articulado em torno dessa falta pelo fato de que, daquilo que deseja, só se pode ter sua falta, nos diz Lacan, já que o único objeto em jogo na psicanálise é o objeto a, ou seja, a falta de objeto, o objeto causa de desejo.
A situação analítica propõe que alguém se isole com outro para ensinar o que?, nos pergunta Lacan, no Seminário sobre a Transferência. E  responde : “Aquilo que lhe falta, e devido à natureza paradoxal da transferência, o que lhe falta, o sujeito vai aprender amando.” O analista é aquele que acolhendo, mas não respondendo à demanda de amor do seu analisando- e aí está a causa de sua abstinência- visará que compareça o seu desejo. É dirigindo o amor ao analista  que o sujeito encontrará uma não resposta, um desejo opaco por parte daquele que tem o propósito de levar o sujeito a aceder a uma posição desejante, a sair do lugar do amor, lugar este que espera o objeto adequado, a  busca da outra metade da esfera  na tentativa de fazer um só de dois e de curar a natureza humana, como diria Aristófanes, para defrontar-se com sua própria causa. Se acontece do sujeito encontrar um analista é isso que ele irá aprender: Não há Outro garantidor e a verdade sobre seu desejo, é o próprio sujeito que a  possui. A análise é um percurso que leva o sujeito da ignorância do amor ao saber sobre o desejo, saber não todo, posto que considera a falta.
E então, é coisa que se ensine o amor? Se uma análise chega ao fim é porque aquele que se submeteu a essa aventura aprendeu a amar. Aprendeu a amar,  como nos adverte Lacan, no que isso se difere do amor, pois o amor, enquanto tal, visa o objeto adequado. O encontro entre um analisando e um analista talvez se assemelhe ao encontro de Poros e Aporia. Um, o analisando, ama porque ignora e, o outro, o analista, se ignora o que move aquele sujeito, pois deve escutar cada caso como se nada soubesse , sabe, no entanto, sobre a falta. A aventura a qual se submete um analisando passa pela aventura com relação ao amor.  O que ele encontrará na sua análise é de fato um Recurso, Re-curso, que na trajetória do amor de transferência coloca o sujeito novamente em curso, livrando-o da paralisia na qual o sintoma aprisiona o sujeito, levando-o a ter recursos para gerir o seu próprio desejo.
Será que alguém ( incluindo você ) ainda precisa de Freud? Essa era a chamada de uma revista de circulação nacional que preconizava o fim da psicanálise. Ora, mas é de fato uma tolice supor que essas reflexões são importantes somente para os porões fechados, o leito onde se passa uma análise pessoal ou mesmo os guetos dos poetas. Isso tem a ver com os efeitos do retorno do recalcado na civilização, principalmente numa época na qual vemos o ódio ruir prédios, fomentar guerras; ódio que não é outra coisa senão a outra face do amor, amódio. Então, para o psicanalista, não se trata nem de amor nem de ódio, mas de amar, amar a diferença, causa de uma psicanálise.

Bibliografia:
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8- A transferência
Banquete de Platão
ANDRADE, Mário -  Amar, verbo intransitivo
FREUD, Sigmund - Artigos sobre técnica
Colóquio do LEPSI IP/FE-USP
Psicanálise, infância e educação

 An. 3 Col. LEPSI IP/FE-USP Oct. 2001